Jogos cooperativos para desenvolver colaboração

Em nossas conversas com educadores de áreas diversas, existe uma preocupação comum: evitar que o uso de jogos em sala de aula estimule muito a competição, em detrimento da colaboração. Mas a verdade é que existe esforço para colaboração mesmo quando nos envolvemos em jogos competitivos.

Capa da edição brasileira

Os excertos abaixo foram extraídos do capítulo Superpoderes colaborativos do livro A realidade em jogo: por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo, de Jane McGonigal. A autora – pH.D e designer de jogos mundialmente reconhecida – apresenta sua visão de como uma geração inteira de jogadores está criando formas mais avançadas e complexas de colaboração:

Desde os tempos antigos, jogar sempre exigiu um esforço concentrado para a colaboração. Isso vale tanto para jogar dados quanto para jogos de cartas, xadrez, esportes e qualquer outro tipo de jogos para diversos jogadores que se possa imaginar. Cada jogo para diversos jogadores começa com um acordo de cooperação. Os jogadores concordam em jogar sob as mesmas regras e em buscar a mesma meta. Isso estabelece um solo comum para o trabalho coletivo. Os jogos também exigem que coordenemos os recursos de atenção e participação. Os jogadores devem se apresentar ao mesmo tempo, com o mesmo pensamento e jogar em conjunto. Eles focam ativamente sua atenção no jogo e concordam em ignorar todo o resto enquanto estiverem jogando. Eles praticam concentração compartilhada e envolvimento sincronizado.

Os participantes dependem uns dos outros para jogar o mais arduamente possível, porque não é nada divertido vencer sem haver um desafio envolvido. Nesse sentido, os jogadores estimulam a consideração mútua. Além do respeito uns pelos outros, eles empregam seus maiores esforços e esperam, sinceramente, encontrar um parceiro ou adversário que valha a pena. (…)

Talvez, mais importante do que tudo, os jogadores trabalham juntos para se convencer de que o jogo realmente importa. Eles conspiram a fim de dar um significado real a ele, além de ajudar uns aos outros a ficar emocionalmente atraídos pelo ato de jogar e colher as recompensas positivas por participar de um bom jogo. Sempre que ganham ou perdem, eles estão criando recompensas recíprocas. (…)

Sempre que você estiver em um jogo com alguém, a menos que esteja tentando deliberadamente estragar a experiência, estará efetivamente engajado em um comportamento altamente coordenado e pró-social. (…)

Isso é verdadeiro até mesmo em jogos que envolvam competição feroz. Considere as origens da palavra “competir”: ela vem do latim competere, verbo que significa “reunir-se, lutar juntos” (…) Mesmo que esteja competindo contra alguém, o jogador precisará se unir a essa pessoa: para lutar em prol da mesma meta, estimular o outro a fazer o melhor possível e participar integralmente, até que a competição chegue ao fim.

MCGONIGAL, J. A realidade em jogo: porque os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. Rio de Janeiro: BestSeller, 2012.

Intencionalidade compartilhada

Para apoiar sua tese ela cita o trabalho de Michael Tomasello, psicólogo de desenvolvimento que cunhou a expressão “intencionalidade compartilhada”, e cuja pesquisa sugere que “a habilidade de integrar jogos complexos em conjunto e de ajudar os outros a aprender as regras de um jogo representa a essência do que nos torna humanos”:

Segundo Tomasello, a intencionalidade compartilhada é definida como “a capacidade de participar, ao lado de outras pessoas, de atividades colaborativas com metas e intenções compartilhadas.” Na presença da intencionalidade compartilhada, nos identificamos ativamente como parte de um grupo, concordamos deliberada e explicitamente com uma meta e podemos entender o que os outros esperam que façamos para trabalhar em prol daquela meta. (…)

Sem a potencialidade humana para a intencionalidade compartilhada, não poderíamos colaborar; não teríamos nenhuma ideia de como construir algo em comum, estabelecer metas para o grupo ou assumir ações coletivas. De acordo com Tomasello, as crianças são capazes de praticar a intencionalidade compartilhada na mais tenra idade. A evidência: sua habilidade natural de jogar com os amigos e sua capacidade de reconhecer quando alguém não está jogando de uma maneira que favoreça o grupo.

Em um dos principais experimentos de Tomasello no Max Planck Institute, crianças entre 2 e 3 anos foram ensinadas a brincar juntas em um novo jogo (…) Então, um títere, controlado por outro experimentador, se une a elas e joga incorretamente, segundo suas próprias regras. Tomasello relata que as crianças refutaram imediata e universalmente esse mau comportamento e tentaram corrigir o títere, para que o jogo pudesse seguir com sucesso – mesmo sem ter recebido instruções para fazê-lo.

MCGONIGAL, J. A realidade em jogo: porque os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. Rio de Janeiro: BestSeller, 2012.

É claro que os jogos despertam também o instinto de competição, que leva os jogadores a ficarem mais preocupados se vão ganhar ou não e, eventualmente, interagirem de forma prejudicial para o grupo. Ainda assim, nos últimos anos, sistemas cooperativos de jogos (co-op) tem crescido no mercado de jogos, revelando que “os jogadores ficam mais felizes ao enfrentarem juntos os desafios do que encarar os outros como oponentes.”

Os jogos co-op oferecem todas as recompensas emocionais de um bom jogo, enquanto ajudam os jogadores a evitar as emoções negativas que podem surgir em um jogo altamente competitivo: sentimentos de agressão, raiva, desapontamento ou humilhação. Por esse motivo, não é nenhuma surpresa que as pesquisas e enquetes de opinião tenham mostrado que, em média, três entre quatro jogadores preferem o modo co-op ao modo multiplayer competitivo.

MCGONIGAL, J. A realidade em jogo: porque os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. Rio de Janeiro: BestSeller, 2012.

Você conhece ou já participou de algum jogo cooperativo? Como foi a experiência? Pensando no jogo cooperativo como ferramenta para propor a resolução de problemas em sala de aula, quais seriam as vantagens e desafios de desenvolvimento e aplicação?

A pesquisa de Michael Tomasello está no livro Why We Cooperate.

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