Rap e jogo: uma questão de flow

Tão importante quanto a poesia ou contundência das palavras, o flow (fluxo, em inglês) é a arte de criar ritmo para as rimas e estabelecer uma espécie de dança em relação à levada do rap. Grandes rappers são admirados pela capacidade de inovar e surpreender no seu flow. Do mesmo jeito, quando criamos um jogo, é fundamental garantir o flow. Mas que flow é esse?

A teoria do fluxo (flow theory) foi elaborada por Mihaly Csikszentmihalyi, um psicólogo croata que fez carreira acadêmica nos EUA a partir dos anos 1950 e trabalhou ao lado de Martin Seligman, considerado pai da psicologia positiva.

Segundo Csikszentmihalyi, o flow seria um estado mental de elevada concentração e envolvimento que a gente experimenta em uma determinada atividade. Ele explica que esse flow é gerado a partir de um componente afetivo que nos motiva a executar aquela atividade, tornando a experiência pessoal, exclusiva e prazerosa.

Ainda de acordo com o psicólogo, a motivação é gerada por uma atividade que nos proporciona desafio, desde que esteja no limite da nossa capacidade de superá-lo. Isto significa que se o desafio estiver acima da nossa capacidade ou habilidade, a atividade vai gerar ansiedade, preocupação e, por fim, frustração. Do mesmo jeito, se nossa habilidade está muito acima do desafio, tendemos a relaxar, ficar apáticos, entediados e desinteressados.

Para atingir o estado de flow, portanto, precisa haver um equilíbrio entre o desafio e a habilidade de resolvê-lo. Para Csikszentmihalyi, atividades que são capazes de nos manter no flow por um longo tempo tornam-se experiências intrinsecamente motivadoras, ou seja, que não dependem de motivações externas para que a gente deseje vivenciá-las.

Voltando ao exemplo do rap, fica fácil de entender porque o flow cria uma experiência altamente prazerosa para o rapper e até, para quem o assiste. É possível, inclusive, enxergar o processo criativo do rapper como uma espécie de jogo, no qual ele se desafia a criar métricas cada vez mais ousadas e originais, exigindo dedicação e envolvimento extraordinários com a atividade de rimar.

Mas o que o flow tem a ver com os jogos?

Game flow e motivação para aprender

O flow é especialmente importante quando aplicado à experiência de jogar e, mais importante ainda, se o jogo tem propósito educacional.

A lógica é esta: todo jogo propõe um desafio – único ou múltiplos, no caso de um jogo que possui níveis. E todo desafio pressupõe que o jogador possua certas habilidades para resolvê-lo. Como é o desafio que nos motiva, precisamos adquirir, ou melhor, aprender novas habilidades que nos permitam evoluir no jogo. Concluir um desafio, por sua vez, fornece feedback imediato sobre nosso progresso e um sentimento de satisfação que nos motiva a aceitar o próximo desafio.

Inicia-se assim um novo ciclo e o jogo cria uma experiência autotélica, ou seja, em que os jogadores estão envolvidos pelo prazer em si de participar dela. Imagine agora que, se este jogo tem um propósito educacional, as habilidades e desafios podem estar totalmente à serviço dos objetivos de aprendizagem pretendidos para um determinado conteúdo, aula ou disciplina.

Nesse sentido é importante observar e balancear o flow ao longo de todas as etapas de desenvolvimento do jogo, pois é ele quem vai garantir o engajamento dos jogadores (neste caso, estudantes). Uma vez que conseguimos esse equilíbrio, o jogo ou processo gamificado será capaz de gerar a tão cobiçada motivação intrínseca entre os jogadores/estudantes, sem que haja a necessidade de recompensas externas, fazendo com que percebam valor e significado em seu processo de aprendizagem.


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